O olhar de uma criança sobre a polícia

post sobre a visão da criança sobre a polícia

Crianças: o que elas pensam sobre nós?

Crianças estão por todo canto, às vezes correndo nos becos enquanto incursionamos ou nas janelas, às vezes apontam e olham assustadas, olhinhos inocentes e curiosos. As vezes estão envolvidas em agressões familiares, veem corpos no chão da favela, inocência que precocemente é tirada, olhar que se transforma diante das cenas de violência diárias. Como essas crianças enxergam a polícia?

Estava certa feita em um posto de saúde, num bairro carente da cidade, Douglas* de aproximadamente 2 anos,  estava no colo da mãe e ao me ver adentrar no posto começou a gritar: “uil, uil, mamãe, olha uil, uil..”. Uil, uil era o som da viatura, segundo o pequeno que continuou gritando de modo animado. Os colegas mantiveram a postura, eu como não resisto a crianças, verificando que o ambiente era seguro me aproximei do pequeno, ele todo afoito, deu um beijo na minha mão e me abraçou, “que lindo, mamãe, olha o uil, uil”. A mãe me informou que quando ele via a viatura ou os policiais passando começava a gritar, mas que nunca nenhum havia dado atenção, normal num serviço ordinário, numa incursão isso raramente é possível. Por fim o pequeno perguntou: “você mata, uil uil?”. Eu falei que Uil uil estava ali pra defender os pequeninos e as pessoas boas, pra cuidar pra que o mal não acontecesse. Ela falou que moravam numa área bastante perigosa e que ele sempre ouvia tiros e via mortos. Eu segui e ele continuou imitando o som da viatura “Uil, il, il il…”.

Na praça daquele mesmo bairro, a pequena Lara* sempre corria para me abraçar, “tia quando eu crescer vou ser polícia igual você”. A mãe tinha duas filhas e eu já havia atendido ocorrências sinistras envolvendo agressões entre ela e o parceiro, com arma branca inclusive, e a menina no meio daquilo tudo assustada, mas sempre feliz ao me ver.

Em outra oportunidade, indo em direção ao trabalho, na mesma área, passei por uma região dominada pelo tráfico. Os policiais de uma especializada estavam subindo o morro e várias crianças de cerca de 8 anos gritando em coro: “polícia vai tomar no **” e fazendo gestos obscenos.

A visão que uma criança tem da polícia, vai variar, de acordo com a condição socioeconômica, o local que vive, as influências que tem, a visão que os pais transmitem. Já vi pais falando “olha a polícia ali, se você não se comportar vou mandar te prender” e eu educadamente corrigi a mamãe ou papai e falei à criança que não tivesse medo da polícia.

As crianças estão ali convivendo lado a lado com o tráfico, com homens armados. Alguns bem pequeninos têm para a polícia aquele olhar curioso, outros aquele olhar de admiração. Já nos mais crescidos, percebo uma visão diferente, alguns transmitem ódio no olhar, já imitam o comportamento de adolescentes que foram cooptados pelo tráfico.

Naquela comunidade carente, onde o tráfico e a pobreza imperam, deveria chegar educação, esporte, lazer, saúde, ações sociais como um todo, mas tudo é tratado como problema de polícia e só a polícia chega lá, não deveria ser assim, mas é.

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Quando o olhar de admiração passa a ser de ódio?

Quando a criança deixa de ver o policial como herói?

Eu não pretendo, nem tenho condições de chegar a nenhuma conclusão, pois, isso exigiria uma pesquisa de campo e um estudo comportamental amplo, e essa é apenas uma analise rasa baseada em algumas situações que vivi, mas que denota que devemos observar aqueles pequenos que estão ali, no meio do fogo cruzado e se possível não transmitir-lhes a imagem de monstro, de terror, de inimigo, repito, se possível. Quando estivermos numa situação que permite, em um posto, rondando.. Sorrir, dar um bom dia, demonstrar àquela criança que a admiração dela é retribuída, que ela é importante. A memória infantil é boa e um aperto de mão pode significar tanto e marcar toda uma vida. Quem sabe começar por um pequeno gesto.  Nós somos humanos e fazemos parte dessa sociedade.

Comments

  1. By Jordana Vieira

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    • By Isabella

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  2. By weslley

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    • By Isabella

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  3. By Anônimo

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    • By Isabella

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      • By Anônimo

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  4. By Bruno Reis

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