Polícia Comunitária: entrevista com a TEN PM Virgília

Deixo aqui com vocês mais uma entrevista exclusiva. Desta vez, tratando sobre polícia comunitária, atividade policial e a mulher, entre outros assuntos. Tenente Virgília é instrutora da disciplina Policiamento Comunitário na Academia de Polícia Militar da Bahia e nos concede, nesta oportunidade, a grata satisfação de conhecer um pouco mais sobre a sua vida profissional e o que pensa destes temas do seio policial. Confiram!
Nome 1º Ten PM Virgília.
Formação: CFO PM e Fisioterapeuta.
Atuação profissional: 13ª CIPM – Pituba/ Salvador-Bahia
Policiais e comunidade pousando para foto em base de polícia comunitária.

CONHEÇA UM POUCO MAIS SOBRE POLÍCIA COMUNITÁRIA

  1. Quanto tempo o Sr.ª tem de corporação?(Blog Quero ser Polícia).

TEN PM VIRGÍLIA: 5 anos e 8 meses.

  1. O que levou a senhora a ingressar na PMBA? (Blog Quero ser Polícia).

TEN PM VIRGÍLIA: A admiração pela atividade policial, principalmente desenvolvida por mulheres. Chamava-me atenção.  E sem dúvida, a possibilidade de estabilidade financeira.

  1. Outra grande discussão que ocorre no seio da instituição PMBA é sobre o policiamento comunitário. A Senhora acredita que este tipo de policiamento pode dar certo na Bahia?

TEN PM VIRGÍLIA: A discussão acerca de “Polícia Comunitária” não é se ela pode ou não dar certo. A filosofia de polícia comunitária está em nossa missão precípua, em nossa razão de existir. Trabalhamos com e para a comunidade. Por mais que esse significado ainda não esteja internalizado no seio tropa e não exista um “modelo” de policiamento totalmente “homogêneo”, tendo em vista que temos concomitantes padrões de policiamento, temos que avançar em entender que policiamento comunitário é mais que um projeto de governo, é um modelo de polícia. Não resta dúvida que de todas as formas de se conceber segurança pública a que mais resiste, sobrevive e se reinventa é o padrão de policiamento decorrente de uma ótica oriunda da filosofia de polícia comunitária, de aproximação com as pessoas de bem.  Isso é uma realidade, o que não significa que tenhamos um modelo satisfatório. Longe disso. Falta muito, temos muito trabalho. Às vezes temos a sensação de fazer um trabalho de formiguinha, mas, o que nos motiva são os resultados práticos, que sempre são extremamente positivos e gratificantes. E eu, uma neófita oficiala, já tenho prova disso, com minha experiência na 13ª CIPM- Pituba.

  1. Existe muita descrença, por parte de muitos policiais e até mesmo da sociedade, sobre a efetividade das Bases Comunitárias de Segurança (BCS) na Bahia. A Senhora acredita que este é um projeto que deu certo? (Blog Quero ser Polícia).

TEN PM VIRGÍLIA: Eu defendo a idéia de que uma Base Comunitária de Segurança é mais um espaço para de desenvolver projetos da filosofia de Polícia Comunitária, é mais uma chance de se desenvolver formas e linguagem acerca do policiamento pautado nesta Filosofia. Contudo, não é o único, tampouco, esgota as possibilidades decorrentes do Policiamento Comunitário em si. Uma das características desse policiamento é isso: é Abrangente, Democrático e Plural. O projeto Base Comunitária foi implantado sem ter cumprido algumas etapas que dizem respeito ao planejamento propriamente dito, isso trouxe alguns reflexos, contudo, o esforço daqueles que estiveram e ainda estão envolvidos no projeto e que acreditam nessa forma de policiamento têm conseguido suplantar certas dificuldades e resgatar a confiabilidade das Bases, e quando digo isso me refiro, primordialmente, ao nosso Público Interno. As Bases precisam ser redutos de pessoas que se esforcem para multiplicar o pensamento do policiamento comunitário e sejam capazes de aperfeiçoar técnicas, bem como, projetos bem sucedidos.

  1. Sobre ser Mulher na PM. É notório que as instituições militares brasileiras ainda são permeadas por certo sentimento machista de que “polícia não é lugar de Mulher”. A Senhora encontra alguma dificuldade em comandar uma tropa que é constituída em maioria por Homens? (Blog Quero ser Polícia).

TEN PM VIRGÍLIA: Somos herança de uma masculinidade hegemônica e do nosso tão bem desenvolvido ethos guerreiro. A corporação é cruel com o feminino e disso decorrem diversas distorções de valores, bem como abre espaço para multifacetadas formas de violências, bem como, de assédio. Temos um machismo repulsivo e altamente danoso. Contudo, ser feminista é quase uma questão de honra. Mas… Sem quebrar a hierarquia e a disciplina, logo, temos que viver nos equilibrando e relativizando condutas. Não é uma tarefa fácil, porém, é muito apaixonante, pois eu realmente acredito ser extremamente necessária formas menos patriarcais de relações humanas no seio da corporação. Precisamos de uma instituição que compreenda que o ‘feminino’ é uma superação de padrões que não refletem mais a realidade e os anseios demandados pela nossa segurança pública. Não somos melhores nem piores que os homens policiais, cada um tem a capacidade de desenvolver da melhor forma suas competências dentro da Corporação. Independente do gênero, nossas (homens e mulheres) missões na Instituição convergem numa única direção: prestar da melhor forma Segurança Pública.

  1. A Senhora se sente valorizada sendo Mulher e compondo as fileiras da PMBA?

TEN PM VIRGÍLIA: A maturidade me faz acreditar que a valorização precisa estar interligada a formas de auto percepção. Não é um olhar externo que me condiciona como ‘valorizada’, é um estado de espírito. Eu me valorizo porque eu acredito no que faço e sei que faço bem feito e frequentemente tenho colhido bons frutos desse trabalho, seja com meu interno, quanto externo. Não quero construir uma visão maniqueísta com a Corporação, pois esta está em transição e em crise de paradigmas, tal qual a sociedade. Seria injusto falar, institucionalmente, de uma forma dicotômica. A realidade é mais complexa que isso. Óbvio que existe no imaginário coletivo distorções de gênero que são partes podres de um sistema em (des) construção.

  1. Muitos acreditam que a “Polícia Comunitária” é o oposto da atividade operacional. O que a Senhora acha sobre este tipo pensamento?(Blog Quero ser Polícia).

TEN PM VIRGÍLIA: Essa é uma das principais falácias acerca de policiamento comunitário, esse tipo de inverdade tem principalmente o propósito de depreciar o policiamento e aumentar a resistência. Não existe essa oposição, ao contrário, a repressão qualificada e o policiamento de aproximação, são ações que se complementam. Dentro do policiamento comunitário, especificamente em Bases Comunitárias, o policial continua tendo a arma de fogo como extensão do seu corpo, efetua prisão em flagrante delito, assim como o policial que trabalha de forma mais próxima com a criminalidade, como nas RONDAS, nada obsta que estes cumprimentem, por exemplo, com um bom dia as pessoas de bem que vivem naqueles locais, enfim, não existe essa divergência.

  1. Por fim, qual conselho a Sr.ª daria para as Policiais que querem se juntar às fileiras da PMBA? (Blog Quero ser Polícia).

TEN PM VIRGÍLIA: É uma carreira apaixonante e bastante gratificante, nesse sentido, espero que cada vez possamos ter um material humano mais qualificado e pessoas capazes de se inserir de modo proativo na Corporação, desenvolvendo sempre ações focadas em cunho técnico e que tenham, sobretudo, a dimensão da importância de nossa atividade na sociedade em que vivemos.

 

Comments

  1. By Rone

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    • By Jordão Vieira

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  2. By Fábio Ribeiro

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    • By Jordão Vieira

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  4. By Bahia

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  5. By Carine Vale

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    • By Jordão Vieira

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