Rato da geladeira

texto sobre o rato da geladeira

O rato astuto

Eu e minha esposa temos um casamento excelente. Desde o começo, com muito diálogo, tudo foi devidamente conversado e acertado. Porém, um dia minha esposa violou o acordo.

Era a cláusula mais importante do casamento depois da fidelidade e do amor. “Não esconderás comida na geladeira”. Havia um porque, meu passado justificava a imposição de tal previsão.

Pois bem, abri a geladeira para pegar um pote de margarina e eis que vejo surpreso…dois Danetes escondidos lá no fundo. Um crime quase perfeito…Naquele momento não hesitei, só faltou colocar luvas para não deixar as digitais. Peguei uma colher de sobremesa, aquelas bem pequenas, abri levemente o canto da tampa e comecei a subtrair lentamente enquanto degustava o sabor da justiça com as próprias mãos. Vingança é um prato que se come frio, e nesse caso, ainda dentro da geladeira, literalmente. Terminei o primeiro. A tentação continuava e algo me dizia. “Você pode mais, você pode ir além, vá e vença”, “ela traiu sua confiança…”. Frase de um discurso motivacional que eu mesmo criei dentro de mim e me incentivava na empreitada criminosa, mas amparada em alguma excludente que eu inventaria a posteriori. Pronto, terminei o segundo da mesma forma, com apenas o canto levemente aberto, mas não antes de deixar de raspar o fundo da tampa que é onde o iogurte / sobremesa láctea é mais gostoso.

Fechei a tampa no mesmo lugar, tomando o cuidado de apertar bem e coloquei lá no fundo como estava. Nem os peritos do CSI descobririam ao olhar por fora e só esperei o resultado.

Contextualizando: dentro da geladeira social existem os potes da saúde, da educação, da segurança. Este vive relegado aos fundos, mas existe. Ele é bonito, saboroso e faz com que, também motivado por filmes, imaginários e contos, algumas pessoas se interessem por ele. É, de fato, uma embalagem bonita. Porém, depois que você se forma / passa no concurso pra área, percebe que, em muitos casos, o pote é sustentado pela casca e não tem conteúdo. O conteúdo foi levado pelo rato da geladeira. Esse rato a cada dia drena o conteúdo da segurança. Seria difícil um banco de dados únicos no Brasil de indivíduos com mandados de prisão em abertos? Ou o mesmo banco com o cadastro de todos os veículos com queixa furto roubo? Se até caixa eletrônico tem leitor digital, seria difícil um sistema com o banco de dados de todos os indivíduos que já se envolveram em crimes, bem como as digitais de cenas de crimes, acabando assim com o problema dos benditos nomes e documentos falsos? Seria, ainda, possível, a destinação de recursos fixos na área de segurança evitando que esse setor seja o primeiro a ter cortes de orçamentos? Seria possível mexer no Estatuto da Criança e do Adolescente ou no sujeito apreendido com fuzil que pega pena menor de 04 anos e assim paga cesta básica? Enfim, seria…?

A segurança no Brasil tem sido pilhada. Fica a casca, a parte visível, as polícias, mas trabalham, muitas vezes, vazias de recursos legais e estruturais.

Era a tarde de sexta-feira. Parecia que havia um sol pra cada um. Eu ouvi seus passos subindo a escada. Estava suada, cansada. Voltara da academia. Ela entrou sorrateiramente. Também trazia consigo seu instinto criminoso. Abriu a geladeira e levou, desejosamente, suas mãos aos Danetes. Deve ter sentido o peso, ou a falta dele… Talvez, pensara no mercado que o vendera, mas não, lembrou que trouxera intacto o flagrante pra dentro de casa. Só uma pessoa seria capaz disso. O barulho estridente do meu nome ainda ecoa pelos confins do infinito. Depois disso, ela fez o que todo mundo faz com as polícias. Jogou os potes no chão, chutou, pulou em cima, jogou no lixo, tirou do lixo, “reconferiu” pra ver se não estava sonhando. Enfim, descontou nos potes a ausência do conteúdo…

Parece muito draconiano e maquiavélico da minha parte, mas foi para o bem dela. Danete engorda “pá rái”!

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Comments

  1. By Marcos

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