O “ter” humano: desabafo de um bombeiro

imagem do bombeiro na postagem o ter humanoO ser humano em ação

Por um Bombeiro Militar

Há uma semana, eu tive, em minha curta jornada como bombeiro militar, a experiência mais forte durante essa caminhada, que me fez refletir sobre os atuais valores dos seres humanos e me questionar sobre qual o verdadeiro sentido de uma vida.  Quanto vale a vida de um ser humano?

Faltando cinquenta minutos para encerrar meu plantão, uma carreta carregada com cervejas e com uma família a bordo (pai, mãe e filha) capotou e colidiu com um veículo de passeio, ficando os três passageiros da carreta presos nas ferragens. Fomos acionados e imediatamente nos deslocamos com essa informação, sem saber ao certo sobre quais condições se encontravam as vítimas. Chegando ao local da ocorrência nos deparamos com um cenário mega complicado, Polícia Militar, SAMU, Via Bahia e PRF estavam presentes no local aguardando a nossa chegada, e, fomos atuar.

Tecnicamente falando, um cenário delicado, o qual precisava de agilidade, precaução e muita cautela, pois qualquer movimento errado poderia comprometer, ainda mais, o estado das vítimas. Resumindo… A ocorrência durou cerca de uma hora e meia, e, com o trabalho em equipe conseguimos retirá-los das ferragens. Pai e mãe saíram com poucos ferimentos, considerando a dimensão do acidente, foram encaminhados ao hospital pelas equipes do SAMU e Via Bahia, no entanto, a filha, uma garotinha de apenas 3 anos, não resistiu aos fortes impactos e veio a óbito no local do acidente. Eu tive a triste missão de retirá-la debaixo da cabine e me deparar com aquela imagem. Acidentes que têm vítimas crianças sempre mexem mais com nossos sentimentos, fizemos tudo que estava ao nosso alcance, mas a criança teve a morte imediata.

Profissionalmente falando, foi uma ocorrência que engrandeceu meus conhecimentos técnicos e me mostrou que não somos super heróis, por mais que naquele momento os meus olhos marejaram, eu fiquei fortemente emocionado, eu consegui me conter e encerrar a ocorrência, entretanto, não tive o poder de “salvar” aquela promissora vida, daquela linda menina. Meu primeiro desencarceramento com óbito de uma criança, confesso, foi a experiência mais forte da minha vida.

O “ter” humano em ação

À margem de toda essa adrenalina, toda a emoção da ocorrência, uma situação, talvez o agravante que me fez sair tão reflexivo daquele local… Enquanto atuávamos com destreza na tentativa de resgatar aqueles seres humanos presos entre as ferragens, populares, transeuntes, ou qualquer outra denominação, friamente saqueavam a carga que estava espalhada pela pista, enquanto o casal gritava de dor e pedia socorro, lutando pelas suas vidas, as pessoas ali em volta, como abutres, roubavam latas de cerveja, ignorando aquele clamor por uma ajuda… Após encerrada a ocorrência, enquanto os pais foram levados ao hospital, o corpo da jovem menina aguardava a chegada do DPT, e ali ao lado dela, aquela deplorável cena continuava. Comparei essas pessoas a urubus atacando carniças, mas fui infeliz e injusto com esses animais, que foram criados para se alimentar dessa forma e dependem disso para sobreviver. Aqueles imbecis que ignoraram os valores humanos não possuem definição no meu vocabulário, talvez eles sintam alguma coisa quando passarem por uma situação dessa com um familiar, ou não, talvez eles nem tenham sentimentos…

Enfim, essa é a minha tristeza e toda a minha indignação. Saí daquela rodovia, retornando ao quartel dentro da viatura, desabafando com os meus colegas… O que aconteceu com o ser humano? Onde estão os valores? Quais são os conceitos de valores? Sinceramente, estou profundamente triste, mas mantenho a minha concepção de vida e de servir às pessoas, valores que aprendi em casa, desde criança, e que pretendo passar para os meus filhos, netos e todos aqueles que conviverem dia-a-dia ao meu lado.

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Comments

  1. By Larissa Brito

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  2. By Lucas Leonídio

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